28 de out. de 2010

Caminhos de tolerância de John Locke às sociedades plurais

A questão da tolerância pôs-se desde sempre, dos mais diversos modos em que se exerce a atividade humana, mas foi com John Locke que teve especial desenvolvimento filosófico, tendo por contexto, no período moderno, a conceituação em torno da sociedade civil e do Estado e questão de delimitação das esferas civil e religiosa; aquela é uma sociedade de homens livres com o objetivo de preservar e promover os bens espirituais.

A inquirição dos fundamentos da tolerância surge desta forma como uma consequência da demarcação entre essas duas tipologias de sociedades. Se ontem assim foi, hoje, a questão da tolerância, como um valor imprescindível para o desenvolvimento das relações entre os homens, mostra-se ainda mais complexa, à medida que se cruzam as relações entre as sociedades atuais as quais são cada vez mais globais, onde se movimentam não apenas bens e serviços, mas também, e sobretudo, pessoas, ideias e valores.

O grande desafio que atravessa as nossas sociedades e Estados é a gestão de toda a diversidade resultante dessa crescente amplitude de mudanças no mundo. A multiculturalidade é um fenômeno transversal à maioria dos países, em que a existência de várias formas de vida quase nunca é fácil e ocasiona frequentemente conflitos e rupturas. A tolerância aparece assim como o princípio orientador das nossas ações e das políticas do Estado num contexto não somente diferente como mais complexo. É fundamental que cada um respeite o outro por aquilo que ele é, ainda que seja diferente, e nenhum grupo ou indivíduo deve julgar o seu modo de vida como único e verdadeiro. Deste modo, urge pensar a tolerância nesta sua nova configuração, de modo a responder também aos desafios surgidos pelos crescentes processos de fragmentação social.

http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/6908

13 de ago. de 2010

Servidores pedem licença dos cargos para trabalhar na iniciativa privada

Luciano Pires

Publicação: 08/08/2010 07:00

No embalo de uma legislação vaga, empregados de elite do Executivo federal trocam de lado, licenciando-se para correr atrás de benefícios que nem de longe o funcionalismo oferece. A busca por prestígio, experiência profissional e, principalmente, dinheiro dita os passos de alguns dos melhores quadros do setor público. O afastamento voluntário levanta discussões de fundo ético e prova que passar em um concurso disputado, ter direito a um salário acima da média e receber do Estado todas as condições para desempenhar bem seu papel enchem os olhos da maioria, mas não seduzem todos os servidores públicos.

A lei prevê que o ocupante de cargo efetivo — que não esteja em estágio probatório — pode se afastar durante três anos consecutivos, sem remuneração, prorrogáveis apenas uma única vez por outros três anos, no máximo. Mas, não raro, brechas burocráticas permitem que alguns passem até mais tempo longe das repartições. A despeito da norma, a administração coleciona casos de pessoas que se ausentam por sete, oito e até nove anos. “Já foi pior, mas ainda tropeçamos em muitos abusos. O servidor sai, fica muitos anos distante, e depois volta para garantir a aposentadoria”, diz um técnico do governo que cuida de processos daqueles que querem estender a licença para continuar no setor privado.

Ampliar o voo solo depende, fundamentalmente, de uma decisão que vem de cima. Os pedidos de prorrogação do período de afastamento são analisados por ministros e presidentes dos órgãos nos quais o servidor está lotado. Os critérios que baseiam a concessão de mais prazo ou a ordem de retorno ao trabalho nem sempre são claros. Influências políticas, recomendações superiores e o histórico acumulado dentro e fora do órgão de origem podem pesar contra e a favor de quem reivindica a sobrevida.

Opção pelo silêncio

Valdery Albuquerque, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e funcionário de carreira do Tesouro Nacional, pode se considerar um privilegiado. Há pelo menos oito anos ele se licenciou, abrindo mão de uma remuneração que pode chegar a R$ 17,3 mil para tentar a sorte no mercado financeiro. Atualmente, está na área de ativos imobiliários do Banco Fator e acaba de receber sinal verde para ficar mais um ano afastado. “O Tesouro é uma instituição onde o servidor tem a oportunidade de conhecer muita coisa. É uma casa que ajuda muito na formação, que ensina bastante. Voltar é uma possibilidade”, disse ao Correio sem dar detalhes de quando pretende voltar.

Na justificativa apresentada ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, Albuquerque informou que vai utilizar o tempo para estudar. “Vou fazer um MBA em São Paulo. Estou olhando onde, pesquisando a melhor alternativa, mas será na área de ativos imobiliários”, reforçou de forma não muito precisa. Afirmando estar com “saudades” do antigo emprego, o executivo descarta qualquer conflito de interesses. Segundo ele, ao contrário do que possa parecer, a temporada no setor privado ainda poderá render bons frutos ao país. “Em geral, não temos nenhum relacionamento com o Tesouro. Não há conflito algum”, resumiu.

O acompanhamento de casos como esse passa ao largo da Secretaria de Recursos Humanos (SRH) do Ministério do Planejamento, ente da União responsável por gerenciar a política de pessoal. Em comunicado, a SRH reforçou que os órgãos têm autonomia e que o controle é descentralizado. Sobre as situações em que servidores acabam ficando mais do que seis anos afastados, o governo não se pronunciou. Apesar de ter sido procurado, o Tesouro também preferiu o silêncio.

“É sempre delicado barrar um pedido de prorrogação de alguém que ocupou cargos de destaque em algum momento. Ministro nenhum faz isso. O mesmo comportamento, porém, não vale para os funcionários de níveis intermediários, que quase sempre têm de voltar ao fim dos seis anos”, completa o técnico do governo experiente em situações dessa natureza.

Fábio de Oliveira Barbosa é outro servidor graduado que, assim como Valdery Albuquerque, experimentou o que de melhor o setor privado pode oferecer em termos de status e remuneração. Ex-secretário do Tesouro (1999-2002), mas concursado do Banco Central, Barbosa pediu licença não remunerada à autoridade monetária em julho de 2002 para assumir a diretoria financeira da mineradora Vale, da qual só saiu em junho deste ano. De acordo com o BC, a previsão de término da licença do funcionário é 30 de junho de 2011. A expectativa é se ele retomará o cargo antes do tempo ou buscará novas oportunidades no mercado. Em nota, o BC descartou ilegalidade ou conflito de interesses “considerando que a Vale não está sob supervisão ou regulação do Banco Central”.

Para órgãos como a Receita Federal, o Tesouro e o BC, o Correio pediu a lista contendo os nomes, cargos e o período de afastamento dos servidores. Ainda que parcialmente, apenas o BC respondeu: “A quantidade de servidores em afastamento vem sendo progressivamente reduzida nos últimos anos”, indicou o órgão. Conforme o banco, e seguindo o que manda a lei, 167 funcionários estão afastados — entre cedidos e licenciados por razões pessoais ou para capacitação.

A distância

No caso da Receita Federal, há indícios de que alguns servidores licenciados estariam montando consultorias para ensinar a empresas e pessoas físicas como pagar menos impostos ou mesmo não contribuir com o Fisco por meio de artifícios contábeis. Já os licenciados do Tesouro podem estar ensinando os meandros dos bilionários leilões de títulos públicos, facilitando a vida de instituições financeiras interessadas em ampliar seus lucros. Isso, sem falar dos importantes contatos deixados nos órgãos de origem, abrindo o acesso a informações privilegiadas e aos lobbies.

Diante dessas suspeitas, a Comissão de Ética Pública da Presidência da República, encarregada de fazer valer o código de conduta da alta administração federal, baixou, em 2003, uma resolução específica para julgar conflitos de interesse. O texto recomenda ações de prevenção e estabelece o que deve ser fortalecido dentro do funcionalismo com o objetivo de prevenir os abusos. Essa instância, porém, não interfere no dia a dia dos órgãos, deixando o acompanhamento dos casos espinhosos nas mãos dos gestores diretos. Mesmo assim, temas de destaque vêm sendo debatidos internamente. “Há questões em discussão. Por que um cidadão que fez concurso público para exercer o cargo fica tanto tempo trabalhando fora? Por que, então, esse cidadão quis fazer parte do Estado?”, indagou um dos membros da comissão.

Mário Alencastro, professor de ética profissional da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e especialista em temas relacionados ao funcionalismo, disse que o mais importante é definir a fronteira entre o que é legal e o que é moral. Para ele, determinados valores éticos ainda estão em construção no Brasil, daí a dificuldade do governo e dos órgãos em encontrar respostas para a maioria das situações a que são submetidos. “O que não é possível é que o cidadão lance mão de determinadas ferramentas, sabendo que está seguro, para sair do funcionalismo”, afirmou. Evitando fazer generalizações, o analista reforçou que o problema maior talvez esteja na falta de vocação da mão de obra que ingressa no setor público. “Essa mentalidade errada ainda está muito presente”, completou.

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/08/08/economia,i=206592/SERVIDORES+PEDEM+LICENCA+DOS+CARGOS+PARA+TRABALHAR+NA+INICIATIVA+PRIVADA.shtml

11 de ago. de 2010

RS - AVANÇAM DEBATES SOBRE A REGULAMENTAÇÃO DA LOAT

09/08/2010-

Mais de 60 colegas agentes fiscais da Administração Tributária participaram durante a tarde de hoje (09/08) da abertura e dos primeiros debates sobre a regulamentação da Lei Orgânica da Administração Tributária em Passo Fundo. Organizado pelo Sindifisco-RS, Sindaf e Afisvec, o evento terá continuidade nas próximas semanas em Novo Hamburgo e em Santa Maria. Estiveram presentes o subsecretário da Receita Estadual, Júlio César Grazziotin, o subsecretário adjunto da Receita Estadual Paulo Fernando da Silveira de Castro, da Divisão de Fiscalização Mário Wunderlich, dos Grupos Setoriais Manuel Sarati, e pelas entidades João Antônio Almeida Marins (Sindifisco-RS), Abel Ferreira (Afisvec) e Celso Malhani (Sindaf).

Primeiro a se manifestar no evento, Grazziotin disse que a conquista da Lei Orgânica é mérito de todos. “Foi um trabalho articulado e difícil”, disse. Para Grazziontin, é preciso agora criar cultura, debater e aprofundar a discussão em torno do assunto. “Nossas responsabilidades aumentam agora. É uma mudança significativa na carreira e por isso esse debate é importante. Somos agora uma carreira de Estado”, salientou o subsecretário da Receita Estadual. Ele defendeu também uma lei nacional que tenha o mesmo teor da LOAT gaúcha.

Grazziotin revelou que Paulo Castro, subsecretário adjunto da Receita Estadual, ganhou a tarefa de levar a discussão para outros estados. “Levamos a discussão para o Confaz e foi aprovado, por vários secretários, que o tema seja construído junto a todos os Estados brasileiros”, afirmou.

Paulo Castro apresentou a visão da administração sobre a Lei Orgânica e chamou a atenção para alguns pontos da LOAT que considerou relevantes. O primeiro ponto, evidentemente, foi a conexão da LOAT gaúcha com o determinado pela Constituição Federal. A seguir, enumerou o conceito de Lei Orgânica, a estabilidade, proteção e garantia jurídica que ela proporciona e as vantagens para a sociedade com a existência da norma legal. “Talvez o mais importante seja a configuração do órgão que a Lei Orgânica acaba por nos trazer, introduzindo competências e garantias que só uma carreira de Estado pode ter”, destacou.

Marins, na sua manifestação, agradeceu à participação da administração no evento e salientou a importância de, neste momento, sairmos da generalidade e irmos em direção à prática. “Precisamos – e esse é o objetivo do evento – tornar eficaz o que foi disposto na norma geral. Senão, vamos ter uma lei com dispositivos extremamente positivos, mas que não chegará a lugar nenhum se não houver os complementos, que são as regulamentações”, disse. Para ele, temos que ter a condição de carreira de Estado. “Hoje temos a primeira lei orgânica nacional dos fiscos. Não há nada similar no País. E eu posso dizer isso com tranquilidade porque tenho ido a outros estados e não há nada igual”, revelou. Para ele, foi uma grande conquista, mas se não fosse a presença física, a luta na Assembleia (e a categoria deu show, afirma ele) não haveria Lei Orgânica. Ele salientou que a luta agora chama-se decreto regulamentando a LOAT, uma portaria fixando as diárias que reajuste o valor hoje irrisório pago a cada um quando necessário.

Marins levantou alguns temas que precisam ser discutidos nas oficinas desta terça-feira (veja matéria no site). “Nos precisamos ter o número de delegacias que temos hoje? Nós vamos continuar a ter agências? Os novos modelos que levam em conta a Internet nos obrigam a ter tantas delegacias? Temos que manter as supervisões assim como estão hoje? Temos que pensar em tudo isso”, afirmou.

O presidente do Sindifisco-RS propôs que a Fazenda evolua e mude agora mesmo. Como exemplo deu os critérios de promoção, que precisam avançar e terminar com as 'notas 10'. “Temos que valorizar o estudo, o empenho e temos que avançar nestes termos também. Que tipos de incentivo temos que dar para quem estuda – na nossa área, evidente –, para incentivarmos o aprofundamento em questões técnicas importantes?”, colocou o Marins para abrir os debates.

Abel, presidente da Afisvec, se disse feliz pelas mudanças propiciadas pela LOAT, mas salientou que concorda com Marins no sentido de que não adianta apenas mudar de nome. “É preciso crescer em atribuições, em autonomia financeira, funcional e administrativa”, declarou. Ele frisou que “ter recursos suficientes”, como diz a lei, não resolve. “É preciso deixar claro os valores e em que termos. Temos que avançar e lutar.” Ele elogiou a existência de um Conselho Superior e a possibilidade de se eleger os representantes da categoria para comandar a Casa.

Celso Malhani, vice-presidente do Sindaf, depois de agradecer à Administração pela oportunidade de juntos abrir o debate sobre a regulamentação da LOAT, relembrou que muitas coisas do que se queria na Lei não foram aprovadas na Assembleia, mas o que passou foi o possível. Sobre a questão previdenciária salientou que é preciso unidade e que esta luta não pode ficar restrita à área da Fazenda. “É preciso ampliar e incluir outras carreiras, que pode aí sim barrar mudanças que prejudicam a todos. As carreiras de Estado não podem atuar de forma isolada”, declarou.

Especificamente sobre a Administração Tributária, disse que o debate passa principalmente pela organização das categorias. “Avançamos e isso se deveu à unidade.” Ele destacou que a união das categorias está andando rápido e os conselhos devem bater o martelo de um estatuto único nos próximos dias.

Lembrou que no dia 2 de setembro deve ser aprovado o estatuto único do Sindifisco-RS. “Isso muda tudo. Quando formos um só, e isso vai acontecer logo, vamos atuar de forma compartilhada e forte., disse convicto. Anunciou que dia 26 de novembro haverá a posse da nova diretoria do novo Sindifisco-RS. Segundo ele, a regulamentação da Lei vai atender aos anseios da sociedade e ao ato de repensar a atividade fazendária como um todo.

Transparência

Grazziotin, ao fazer nova manifestação, disse que hoje quase 40% do ICMS potencial está desonerado e esse é um valor significativo que o Estado abre mão para ajudar no desenvolvimento. Por isso cada vez mais se pede transparência. “Temos que dar uma resposta para a sociedade sobre isso. A sociedade quer saber se houve retornou, se haveria outra forma do Estado aproveitar e dar impulso ao seu desenvolvimento. Mas há que ter estrutura e as entidades precisam discutir isso. As carreiras e o grupo precisa discutir isso." Por esta razão, disse Grazziontin, ele defende a existência de um Código de Defesa do Contribuinte feito pela categoria, com o enfoque do grupo, a visão do grupo. “Temos que discutir FGs, discutir postura e horário também. Será que todos estão cumprindo o horário? Será que, me refiro à autonomia, será que cada um deve fazer o que quiser e sem dar explicações?. Acho que não. O grupo precisa planejar e discutir para onde vamos. O que é autonomia afinal?. A autonomia, para mim, é do grupo e não da administração”.

Grazziotin revelou também que agora, com a Lei Orgânica, a administração está trabalhando um decreto - que está no gabinete do secretário para publicação - que regulamenta a lei, que fala no Regimento Interno, no Conselho, na remoção, na promoção. “Vamos aos poucos. Hoje estamos discutindo o princípio. Ainda vejo que estamos no início do processo, no começo do debate”, afirmou.

A seguir, Marins pediu a palavra e disse que estávamos em Passo Fundo, reunidos com o governo, justamente para discutir a visão que “temos e o que queremos”. Para ele, pode ser que o governo não queira acabar com as supervisões, 'e esse é o nosso modelo'. “Se ele não quiser acabar com ela ou adotar o nosso modelo para outras assuntos, isso vai ficar registrado. Mas isso é normal”, argumentou.

Carlos Alberto Agostini também solicitou a palavra. Parabenizou as entidades pelo debate e disse que a questão dos direitos dos contribuintes está há muito em discussão. Mas, dirigindo-se a Grazzintin (que defendeu a ideia de um Código do Contribuinte), salientou que vem sendo difícil combater a ideia de um código (impedir que ele surja), que sabidamente não irá atender aos interesses e lutas da categoria. “Mas eu tenho o mesma visão que tu tens, Grazziotin: um capítulo sobre um Código do Contribuinte é necessário mesmo. Creio que o caminho, a saída, é fazermos uma Carta de Compromisso com os contribuintes, que pode ser um capítulo da Lei Orgânica, regulação do sigilo fiscal, etc, que pode ser factível."

Carreira e Prerrogativas

A seguir, o promotor de Justiça do Ministério Público estadual, Marcelo Juliano Silveira Pires, apresentou um trabalho comparativo entre as prerrogativas do MP e a novíssima Lei Orgânica. O promotor disse que compilou o que considerava mais importante para o debate. “O que é afinal carreira de Estado. Eu penso que desde 1988 vocês são carreira de Estado e se alguém não o reconhecia o fazia por ignorar que carreira de Estado é aquela que, por natureza, é intrínseca ao Estado. Assim como é o Ministério Público. São formas de representação da função de Estado em uma carreira”, explicou aos colegas presentes.

Ele citou os casos que são exclusivos do Estado, onde não há parâmetro com a iniciativa privada. “Essa introdução eu faço para que tenhamos a consciência que a carreira de Administração Tributária é sim carreira de Estado, por definição. O princípio da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência regem as carreiras de Estado e estão presentes na carreira de vocês. Vamos falar de garantias e prerrogativas das carreiras de Estado. As prerrogativas são do cargo e as garantias são do agente. Essas duas palavras são básicas para entendermos carreiras de Estado e a partir dela nos organizamos socialmente”, ensinou.

Ele fez um paralelo entre as garantias existentes no MP e com as definidas na nova LOAT. “Percebi que há muitas semelhanças com o MP”, disse. Ele defendeu que as categorias lutem pela criação de uma lei nacional, tal qual ocorre com o MP, para que o exercício da função possa ser facilitado.

Marcelo lembrou conceitos importantes como a unicidade, a indivisibilidade e o princípio da inamovibilidade funcional. “Para nós, do MP, a inamovibilidade é dogma: com isso não estou a reboque de que nenhuma hierarquia dentro do MP. Isso é muito respeitado.” Se dirigindo a Grazziotin ele disse que não sabia se era assim na Fazenda. “Eu vejo os fiscais hoje como o MP de anos atrás, crescendo, se tornando forte e independente. Talvez esse seja um dos pontos de discussão: ao que sei esta independência (que difere da autonomia institucional, pois o MP não é poder) funcional pode existir sim.

Para ele, a discussão sobre a autonomia financeira é relevante. “Isso pode fortalecer a categoria e a atividade. Eu sei que os governantes do Estado se preocupam com isso. Mas o que nós temos que nossa preocupar é com a instituição, é com o Estado, é com a sociedade, e não com o governante. Está na hora de pensar sim na autonomia financeira”. Ele salientou que as garantias do MP são iguais as da Magistratura, Temos três garantias: vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade. “Não são privilégios, são garantias para que o agente que exerce o cargo não se intimide, não sofra pressões do poder econômico e político.”

Ele salientou que hoje, infelizmente, já passou no Senado uma emenda que retira a a vitaliciedade e inamovibilidade. “Isso é temerário: basta uma representação no Conselho Nacional do MP e se retira o cargo do juiz ou do promotor de Justiça que, muitas vezes, enfrenta o poder político e econômico. Isso é pernicioso para a sociedade.”

Ele defendeu que a inamovibilidade (quem sabe na lei nacional, disse) seja incorporada como norma, pois manter o Estado Democrático de Direito e impedir que os fiscais não fiquem à mercê das pressões políticas é essencial. “Toda a atividade de fiscalização - e a dos delegados de polícia também - deveria ter esta garantia”.

Ele valorizou a existência de um Conselho Superior: no MP. As promoções passam por ele, outras situações também, como a remoção do cônjuge. O promotor levantou uma outra questão: angariar simpatia da sociedade, obter o seu aval, para que uma verdade sobrevenha: garantia não é privilégio. "Temos que ter um trabalho junto aos veículos, junto à mídia, para que essa verdade seja conhecida."

Para o promotor, o MP e os agentes fiscais estão falando a mesma língua. “Defendemos a sociedade”, diz. Ele parabenizou a Fazenda e os fiscais pela conquista e disse que é muito importante os agentes públicos falarem: “Temos que defender as nossas instituições como de Estado. O privilégio não é nosso é da sociedade. Temos que ser combativos e se quiserem representar contra nós no Conselho Superior, que representem. Mas não podemos ser vassalos do poder político e econômico”, encerrou.

Marins salientou que o texto da inamovibilidade do projeto das entidades era igual ao do MP. Foi cortado no governo e não chegou ao projeto que foi à Assembleia Legislativa. Marins e Abel elogiaram a palestra e agradeceram o incentivo que as reflexões do promotor trouxeram. Abel lembrou que os agentes são uma mescla de carreira de Estado e, no momento seguinte, é cidadão, que depende do resultado da Fazenda. “O promotor nos incentivou e lançou uma semente.”

http://www.sintaf-rs.org.br/WebForms/interna.aspx?campo=3248

6 de jul. de 2010

Plenário STF - Subteto do funcionalismo público

No dia 24 de junho de 2010, o Supremo Tribunal Federal (STF) reiterou a validade do subteto constitucional do funcionalismo público nos estados. A decisão foi tomada na análise de cinco Recursos Extraordinários (REs 417200, 419703, 419874, 419922 e 424053) de autoria do governo de São Paulo, que tiveram repercussão geral reconhecida.

28 de jun. de 2010

Aprovados em concurso público são barrados por deficiência

www.professoresassociados.com

Adriana Arakaki estudou muito durante três anos e finalmente conseguiu ter seu nome publicado no Diário Oficial. Ela passou em um concurso para agente fiscal do estado de São Paulo em 2009, mas foi reprovada no exame médico para admissão. O laudo sustenta que, sob estresse, ela pode sofrer acidentes cardíacos.

“Eu acho que eles não deviam falar isso. Eles não são deuses pra saber quando que a gente vai morrer”, diz Adriana, que já foi dentista. Ela tem uma doença rara conhecida como Síndrome do QT Longo, que pode provocar morte súbita. Por isso, desde 2002, usa um marca-passo desfibrilador, que mantém a frequência do coração. O aparelho dá um choque elétrico para restaurar o ritmo cardíaco se for necessário.

Em nota, a Secretaria Estadual de Gestão afirma que “pessoas com marca-passo não estão aptas a trabalhar no serviço público.” Segundo José Carlos Pachón, médico que dirige o serviço de marca-passo da Secretaria Estadual de Saúde, Adriana poderia sim assumir o cargo.

“Hoje a incidência de morte súbita nessas pessoas, desde que sejam bem tratadas, é muito baixa. Com o desfibrilador, a chance é praticamente nula”, disse ele.

“A gente tem conhecimento de que diversos colegas que são agentes fiscais de rendas são portadores de marca-passo”, acrescentou Ivan Neto Moreno, presidente do Sindicato dos Agentes Fiscais de Rendas do estado de São Paulo.

A procuradora do Trabalho Adélia Augusto Domingues também discorda da reprovação de Adriana no exame médico. “A mim, me parece um ato discriminatório. É você considerar as características de uma pessoa como motivos pra fazer com que ela não exerça um direito que todos temos ou dificultar o exercício desse direito”, defende a procuradora.

“Só porque tenho um marca-passo, eu não sou incapaz de trabalhar. Eu estudei, eu concorri com 40 mil candidatos na prova e fui uma das classificadas”, disse Adriana Arakaki.

Mato Grosso do Sul
Em Mato Grosso do Sul, uma pedagoga que é deficiente visual vive uma história parecida com a de Adriana. Pela lei, 5% das vagas de concurso público são destinadas a pessoas com deficiência. Foi em uma reserva de vagas que Telma Nantes passou em um concurso municipal para ser professora de educação infantil em Campo Grande.

Mas o laudo de uma equipe formada por um pedagogo, um psicólogo e um oftalmologista concluiu que a professora não tem condições de cuidar de uma sala de aula com crianças. “Um órgão público que devia fazer a política de inclusão é o primeiro a excluir. Eu fui vítima de um preconceito, da discriminação e até mesmo da humilhação”, disse Telma.

O procurador Valdeci Balbino da Silva, que fala em nome da prefeitura, diz que não se trata de discriminação. “Ela não está apta não por ser deficiente física visual. Ela não está apta, porque o grau de deficiência dela não é compatível com as especificidades que se exige para o desempenho do cargo”, alegou o procurador.

Curitiba
Em Curitiba, Ricardo Tadeu já foi vetado em um concurso para juiz por ser cego. Hoje, é desembargador federal do Trabalho e tem uma opinião bem clara sobre o assunto. “Qualquer avaliação antecipada é preconceituosa. Foi o meu trabalho que me trouxe aqui, e não foi a falta da visão”, disse Ricardo Tadeu.

Adriana entrou com recurso administrativo e desde abril espera uma resposta da Secretaria de Gestão de São Paulo. Já Telma está processando a prefeitura de Campo Grande por danos morais.

Veja o vídeo