30 de abr de 2012

Blogueiros reclamam de falta de orientação e pressão por audiência


Washington Post passou por dias duros, comenta o ombudsman Patrick Pexton em sua coluna desta semana [20/4/12]. O diário ficou de fora dos prêmios Pulitzer, anunciados na semana passada. No mesmo dia, jornalistas tiveram que informar se participariam ou não do quinto plano de demissão voluntária oferecido em nove anos pelo jornal. O sindicato que representa os funcionários da redação informou que pelo menos 32 haviam aceitado. Na semana anterior, a blogueira Elizabeth Flock havia pedido demissão.
Para Pexton, o evento mais notável foi a saída de Elizabeth, jovem na faixa dos 20 anos cujo trabalho era atualizar o blog de notícias de última hora do Post, o BlogPost, com as notícias mais populares da web. Ela divulgava matérias produzidas pela redação em Washington, mas seu trabalho era muito mais de agregação de informações de outros veículos. “Agregação é um termo impreciso. No seu melhor, significa reunir matérias sobre um tema de várias fontes e direcionar leitores a elas por meio de links. No seu pior, como Bill Keller, ex-editor do New York Times, já escreveu, inclina-se ao roubo”, disse o ombudman.
Um jornalista digital lê diversas matérias sobre um tema em diferentes publicações, resume-as e as reescreve, dando links e, no Post, acrescentando um ângulo a partir de Washington. O objetivo é navegar pelas tendências da web, esperando alcançar um número grande de page views – no BlogPost, este número era de 1 a 2 milhões de hits por mês. Em muitos dias, Elizabeth era a única a abastecer o blog com conteúdo. No mês passado, ela atingiu a meta de 5,9 posts por dia, cada um com uma média de 500 palavras, resumindo muitos eventos complicados. Nos últimos quatro meses, ela havia cometido dois erros – o que lhe rendeu duas duras notas de editores.
Erros cometidos pela blogueira
Um dos erros, ocorrido no fim do ano passado, foi um resumoque dizia que o pré-candidato republicano à presidência Mitt Romney teria supostamente usado um antigo slogan da Ku Klux Klan em um discurso – uma história que se viralizou na internet, mas não era verdadeira. Elizabeth falhou ao não entrar em contato com a campanha de Romney para pedir comentários, e nenhum editor verificou se ela tinha feito isso.
Já este mês, a jornalista postou uma matéria sobre vida em Marte, com informações dando conta de que cientistas reexaminando dados coletados em 1976 concluíram que poderia haver vida bacteriana no planeta vermelho. Elizabeth afirmou que, na pressa, leu 10 matérias sobre vida em Marte, incluindo alguns papéis de pesquisa, e esqueceu de dar link a quem primeiro publicou a matéria – o Discovery News. Assim, a emissora questionou se a matéria havia sido descaradamente copiada, com apenas algumas mudanças. Depois do episódio, ela optou por pedir demissão, assumindo o erro e informando que a pressão era muito grande e faltava pouco para que uma nova falha ocorresse.
Erros cometidos pelo Post
Para o ombudsman, o Post falhou tanto quanto Elizabeth. Ele conversou com diversos blogueiros do jornal sobre o assunto – alguns deles deixaram o Post nos últimos meses com a mesma crítica, dizendo que se sentiam sozinhos no mundo digital, sob grande pressão para ter audiência, sem treinamento e orientação.
As normas para agregar matérias são quase inexistentes. Segundo Katharine Zaleski, diretora-executiva de notícias digitais, os blogueiros sabem dos altos padrões do Post. “Temos conhecimento do que é enfrentado por nossos blogueiros e nos esforçamos para garantir que eles tenham o apoio editorial de que precisam. Dizemos a eles que nossa prioridade central é precisão, não velocidade”, afirma ela.
Agora, o Post anunciou um novo programa para que jornalistas digitais aprendam a apuração de rua com repórteres e repórteres aprendam com eles sobre redes sociais. Na opinião de Pexton, é uma excelente ideia – pena que muito tarde para Elizabeth e outros blogueiros.